Sylvio Renoldi

O homem sensorial foi o último filme montado por Sylvio Renoldi

Quando o processo de montagem de um filme se inicia, é normal o diretor encontrar-se muito desgastado com as etapas anteriores em que esteve envolvido: criação do roteiro, pré-produção, produção e filmagem. Tradicionalmente, fazer um filme demanda muito tempo e energia e ao sentar-se a mesa de montagem o diretor inevitavelmente traz consigo uma boa dose de insegurança em relação a todo o material filmado.

A figura do montador de cinema é aquela que, em geral, lê o roteiro, assiste o material filmado ou gravado, debate amplamente com o diretor e estrutura o filme, tanto do ponto de vista prático como do conceitual. O montador de cinema exerce também a função de um psicoterapeuta ou “aquele que se utiliza de técnicas sugestivas, persuasivas e tranquilizantes, com o paciente”. Sylvio Renoldi nunca gostou de ler o roteiro do filme que iria montar. Dizia que, quando isso acontecia, o filme não ficava tão bom, e que ele nunca havia montado um filme que tivesse ficado próximo do roteiro.

Ele pedia para o diretor contar o filme — adorava esse momento, isso o fazia descobrir as possibilidades da história. “Quando o diretor insiste muito para eu ler o roteiro, é que ele não está muito seguro do filme que está fazendo, aí eu penso, puxa, esse cara vai me deixar louco! Vou ter que fazer ele entender o óbvio: aquilo que ele imagina estar lá no roteiro não é necessariamente o filme que ele filmou. O cara escreveu, produziu, filmou, comeu o pão que o diabo amassou para fazer o filme, bem ou mal ele sabe o que não deu muito certo; se ele me conta a história, todo mundo sai ganhando, ele pensa o filme de novo levando em conta tudo o que deu certo e o que não deu, ao invés de a gente ficar dias discutindo, vamos fazer o melhor para o filme dele. Se o camarada tiver essa visão, a fita pode ficar a melhor do mundo e eu quero que fique mesmo. Eu nunca caio na besteira de falar mal do filme do cara, porque quem está fazendo um filme está fazendo o melhor filme do mundo. Aí vou mudando devagarzinho, um planinho pra lá, um planinho pra cá, que você acha, hem?”.

Renoldi montou mais de setenta longas-metragens e um sem-número de curtas. Começou na Maristela, da qual era vizinho de muro, e aos 10 anos ficava conversando com o ator Luigi Picchi; depois trabalhou como terceiro assistente no filme Mulher de verdade, de Alberto Cavalcanti. Trabalhou com Roberto Santos em A hora e a vez de Augusto Matraga, entre outros, montou o primeiro longa-metragem de Rogério Sganzerla, O Bandido da Luz Vermelha, com quem estabeleceu uma amizade e uma parceria profissional invejável. Tinha obsessão por som, dava tanta importância à montagem da imagem quanto à do som, adorava imitar sons de objetos e de animais para os ruídos de sala. Montou filmes na Boca do Lixo, pornochanchadas, experimentais, cangaço etc.

Conheci Sylvio pessoalmente em 2001, éramos amigos de tomar cafezinho e comer pastel de queijo, que ele adorava. Tive o privilégio de compartilhar a mesa de montagem com ele durante dois meses na montagem do O homem sensorial. Esperei dois anos o Sylvio se preparar e se recuperar de uma intervenção cirúrgica no rim, para realizarmos juntos a montagem de um filme ainda inédito. Um dia ele me ligou e disse: “E aquele filme, esta precisando de um montador ainda?”. Eu respondi: “Estou esperando você!”. Ele retrucou: “Bom, é o que eu sei fazer, né? Então amanhã a gente começa”. Ficamos mais de cinquenta dias montando intensamente um filme de quinze minutos. Poderíamos ter feito em menos tempo, mas quem seria louco de apressar as coisas. Quando a discussão se prolongava muito ele ficava “brabo” e começava a falar palavrão com um sotaque italianado e muito divertido: “Porra, mais que cassete! A gente perde mais tempo discutindo do que montando, é melhor colocar o plano lá e ver se funciona. Se ficar bom deixa ele lá, senão a gente joga fora e começa de novo”.

Todos os dias era uma alegria, ele contava muitas histórias sobre o cinema. Ele trazia um envelope de suco de laranja em pó e a gente se divertia trabalhando, naquele que seria o último filme que ele montaria. Era de uma simplicidade ímpar, um verdadeiro parceiro, que deixa muitas saudades. Mesmo com a perna inchada, ele nunca reclamava, estava sempre rindo. Só queria ficar bom e voltar a montar três, quatro filmes ao mesmo tempo como em outras épocas. Lembro que quando o computador ficava “renderizando” o material ele olhava para aquela barrinha na tela e fazia cara de entediado. Pegava o telefone e ligava para o Sganzerla e ficavam papeando muito. Por várias vezes presenciei Rogério ponderando as palavras de Sylvio, eram parceiros, se adoravam. Sylvio nos deixou algumas semanas depois que Sganzerla faleceu.

Eugenio Puppo (Cinema Marginal Brasileiro – Filmes produzidos nos anos 1960 e 1970, 2ª Ed., 2004)

Carlos Reichenbach

A quem o filme é dedicado

Poucos deixaram tanto amor e apreço pela arte, dignidade e generosidade. Carlão, que falta eu sinto de você, lembro todos os dias de suas palavras, conselhos, propostas, revoluções, nossas primeiras longas e fabulosas conversas – minha iniciação no cinema. Obrigado por tudo, devo muito a você. EVOÉ! Eugenio Puppo

Depoimento cedido para a Homenagem a Carlos Reichanbach durante o 39º Festival Sesc Melhores Filmes, 2013




website: pratza